Quando eu quis entrar por aquela porta, a mesma que em seguida você saiu, eu não podia imaginar que isso seria para sempre. Eu, ainda que em minha inocência de achar que o mundo era lindo, e você, ainda na inocência de achar que não me magoava, que eu era forte o bastante. Ficamos conversados: eu não entendia você e você não me entendia. Éramos perfeitos um para o outro, exceto pela razão de que isso só estava em minha cabeça. Éramos imperfeitos um para o outro, exceto pela razão de que isso era o que você pensava sobre nós, e eu cego, não percebi.
Fiquemos claros, eu não sou forte para suportar essa dor. Ficou claro, eu sonhei com vidas que nunca nos pertenceriam. Você é água e eu, também. Se misturaram tanto que eu não pude notar que igualdade demais é sempre ruim. Fiquemos claro, cheguei a pensar em nós dois. Ficou claro, o seu "nós dois" é cada um em seu canto. Quando eu entrei por aquela porta, não sabia que poderia sair segundos depois.
Será que eu deveria ter entrado? Prender você era uma das soluções? Só de lembrar em tudo o que não vivemos me dói o coração. Só de lembrar de que ele pode estar ao seu lado e eu não, fico destruído. Sei que ele não está, mas ele pode, enquanto eu não. Sua determinação foi clara, eu não. Saiba apenas uma coisa, toda noite, antes de dormir, e toda manhã antes de sair, eu deixo a porta destrancada, esperando que você possa me fazer uma surpresa e, quem sabe, aparecer novamente em minha vida. Não me torturo com isso, apenas deixo claro o que eu queria.