Rito

Me traga a pílula, por favor, garçom.
Não quero a da tristeza, essa tenho.
A mortífera me fará menos dano.

Sabes bem qual é... não se apresse.
Tempo é sagrado, dizem os sortudos
não pessoas como eu, avessas.

Traga-me com um copo de vinho tinto
quero deitar com leve sonolência
e não perceber o que se passa.

Cubra-me também, garçom.
O frio não me apetece.
Ele, às vezes, é bem cruel.

Caso a lua esteja cheia,
não se preocupe, não sou lobo.
Fui apenas mais um na vida, desimportante.

Cascas

Desce uma casca minha agora
jogo-a fora, na cesta de sujeiras
me sinto leve, me sinto vivo,
estou nu para a vida

Estou nu para a vida
para me sentir leve, vivo...
jogar fora essa cesta de lixo
e a casca que carrego

Essa casca de sentimentos
jogo fora... num lixo qualquer
Prefiro a nudez, o corpo cru

E nu, me sentindo nu
percebo que novas cascas se forma
e vão me deformando com o tempo

Cântico

Eu canto a vida,
canto como quem chora
se hora canto chorando
é por que meu choro não tem som.

Dizem que as cabras
Com suas patas
Maltratam o chão.

Todos os dias
nos tornamos cabras.
E as nossas palavras
se convertem em patas
que perfuram o chão
das palavras
que cada homem guarda em si.

(Poema do mineiro Rodrigo Corrêa, poeta contemporâneo)
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