Era a noite esperada. Depois de tantos anos ali, passivamente observando tudo, chegou a noite esperada. Ele, ansioso, mas nada demonstrava. Ela, talvez nada sabia. De algum modo ele conseguiu o convite para a tal festa no tal palacete. Um salão nobre na entrada, escadas que partiam do salão para o andar superior, corredores com quadros de famosos pintores, cortinas de seda... tudo estava como por ela planejado, a casa cheia. Talvez ela nem soubesse da presença dele, logo ele se fez presente. Aproximou-se dela, um andar leve, um sorriso penetrante e um olhar indefeso. Esticou a mão para cumprimentar a anfitriã. Solicita, ela retribuiu o aperto de mãos. Não eram próximos para um abraço em plena multidão. Ele fez uma referência de despedida e voltou à festa, cumprimentou outros muitos, estava na alta sociedade naquele momento.
Vestidos elegantes e bons ternos europeus, nem todos italianos, marcavam o centro do salão. Ela, com seu vestido meio bege, se impunha diante as outras. Ele, com um terno que sobrou-lhe de seu avô, passava despercebido entre os demais convidados. Ela dançava ora com um duque, ora com um príncipe. Ele, a observava. Esbarrou em uma copeira que derramou uma champanhe no paletó. Assustada, disse que limparia, não queria ser despedida. Como estavam no canto do salão, ninguém reparou. Foram à cozinha para secar o molhado da roupa. Medrosa, pediu para que ninguém soubesse, todos ali foram contratados exclusivamente para a festa. Calmo, disse que a copeira que não se preocupasse, pegou a mão da dama e a tirou para dançar. Ali mesmo na cozinha. Ele precisava dançar. Ela precisava se distrair.
O salão já estava cheio o suficiente para os parabéns. Outra copeira trouxe o bolo, era melhor. Como de praxe de nobres, ela deveria fazer um discurso, não muito breve, não muito longo. Não resistiu e optou pelo mais demorado discurso que já fez. Seu jeito a denunciava, faria sempre o maior discurso. No salão as pessoas se misturavam e não se via um rosto que pudesse dizer quem era. Estavam todos ali em baixo. Esperava-se uma surpresa nessa hora. Ela apareceu. Do teto descia um lindo pôster que seus pais e irmão o fizeram. Seu irmão não estava presente, pois viajava a negócios. Mas o presente era deslumbrante. Aquela foto escondia todo o andar de cima de tão grande. Animada com aquilo tudo, se prolongou no discurso.
Foram os 5 minutos mais longos da vida de muitos ali. Parabéns cantado, bolo repartido, mais música, mais bebida, mais noite e no fim, todos se foram. Os pais desceram para o quarto de empregados, não precisava mais fingir que os amava. Eles aceitavam as condições, ensinaram aos filhos tudo o que puderam. As copeiras foram dormir, exceto a desastrada, que ficou por arrumar a casa a pedido da aniversariante. Ela, cansada de sua festa, subiu, e ele já a esperava no quarto. Abriu a porta. Em cima de uma mesa havia cerca de 40 relógios, 80 cartões de crédito, alguns anéis e colares de ouro e brilhante, inclusive o dela, falsificação feita por ele. Riram muito. Quebraram o falso que desceu ralo abaixo. Ele tirou sua fantasia de menino pobre, e tão nobre quanto ela estava irreconhecível. Ele podia sair pelos fundos e entrar pela porta da frente agora... afinal, acabara de chegar de uma longa viagem de negócios. A copeira desastrada quase não o deixa entrar, pois não o conhecia.
No dia seguinte não houveram queixas de furto ou roubos em nenhum lugar, exceto a dela, que reclamou de um anel de brilhantes. Depois dela, um ou outro foram reclamar diretamente ao banco. Suas contas já não tinha mais dinheiro. A esposa de uns ficaram receosas em denunciar o roubo do anel, era presente do amante que na festa estava.
No fim da semana, só ouviram-se boatos da boa festa que foi oferecida no Setor Bueno. "A festa do ano", como algumas colunas sociais chamaram. "Ser rico tem suas vantagens", apontara a colunista do principal jornal da cidade. Mas o mais importante de tudo foi que os irmãos Souza e Silva agora tinham mais dinheiro para se manter. Até o próximo plano de festa.