Culpa

Que culpa tenho em te amar?
Se durmo e acordo pensando em você
e nada me espanta quando, sorrateiramente
invade meus sonhos pra me fazer feliz?

Que culpa tenho em te amar?
Se te vejo em todas as esquinas que passo,
e até através da vidro na janela do meu quarto
eu vejo seu reflexo e sinto seu sorriso.

Que culpa tenho em te amar?
Se isso me faz tão bem?
Se isso é o que eu quero?

Que culpa tem você em não me amar?
Já que nem sempre as coisas
acontecem como queremos?

Sorriso Frouxo

Quem vê meu sorriso não percebe a dor que sinto
Não sabe o quanto sofro e já sofri
São aqueles olhos que nunca tive
que nunca pude dizer
que nunca me olharam

Não sabem o quanto me magoa
dizer ao vento e ele levar minhas palavras à lama
palavras malditas que me ferem
olhares tendenciosos que me corroem

Não sabem o quanto dói sentir
sentir sozinho algo que é pra duas pessoas
ver o mundo atrás de lágrimas constantes
que são só suas, que é só seu
dores múltiplas que mutilam pouco a pouco

Quem vê meu sorriso não percebe a dor que sinto
nem o que eu realmente queria viver.

Faço mal?

Eu faço mal em te querer por segundos
ainda sabendo que eles irão embora
e tudo não passará de lembranças
que me farão viver por mais algum tempo
e lembrar que se hoje vivo, é por você?

Amar Alguém

E amar alguém
não faz esse alguém
te amar também.

E amar alguém
não faz esse alguém
saber que você ama.

E amar alguém
é o simples ato
de amar alguém.

Sem falas, sem ditos,
sem trópicos, sem discos
sem música... até se declarar.

Irmãos Souza e Silva

Era a noite esperada. Depois de tantos anos ali, passivamente observando tudo, chegou a noite esperada. Ele, ansioso, mas nada demonstrava. Ela, talvez nada sabia. De algum modo ele conseguiu o convite para a tal festa no tal palacete. Um salão nobre na entrada, escadas que partiam do salão para o andar superior, corredores com quadros de famosos pintores, cortinas de seda... tudo estava como por ela planejado, a casa cheia. Talvez ela nem soubesse da presença dele, logo ele se fez presente. Aproximou-se dela, um andar leve, um sorriso penetrante e um olhar indefeso. Esticou a mão para cumprimentar a anfitriã. Solicita, ela retribuiu o aperto de mãos. Não eram próximos para um abraço em plena multidão. Ele fez uma referência de despedida e voltou à festa, cumprimentou outros muitos, estava na alta sociedade naquele momento.

Vestidos elegantes e bons ternos europeus, nem todos italianos, marcavam o centro do salão. Ela, com seu vestido meio bege, se impunha diante as outras. Ele, com um terno que sobrou-lhe de seu avô, passava despercebido entre os demais convidados. Ela dançava ora com um duque, ora com um príncipe. Ele, a observava. Esbarrou em uma copeira que derramou uma champanhe no paletó. Assustada, disse que limparia, não queria ser despedida. Como estavam no canto do salão, ninguém reparou. Foram à cozinha para secar o molhado da roupa. Medrosa, pediu para que ninguém soubesse, todos ali foram contratados exclusivamente para a festa. Calmo, disse que a copeira que não se preocupasse, pegou a mão da dama e a tirou para dançar. Ali mesmo na cozinha. Ele precisava dançar. Ela precisava se distrair.

O salão já estava cheio o suficiente para os parabéns. Outra copeira trouxe o bolo, era melhor. Como de praxe de nobres, ela deveria fazer um discurso, não muito breve, não muito longo. Não resistiu e optou pelo mais demorado discurso que já fez. Seu jeito a denunciava, faria sempre o maior discurso. No salão as pessoas se misturavam e não se via um rosto que pudesse dizer quem era. Estavam todos ali em baixo. Esperava-se uma surpresa nessa hora. Ela apareceu. Do teto descia um lindo pôster que seus pais e irmão o fizeram. Seu irmão não estava presente, pois viajava a negócios. Mas o presente era deslumbrante. Aquela foto escondia todo o andar de cima de tão grande. Animada com aquilo tudo, se prolongou no discurso.

Foram os 5 minutos mais longos da vida de muitos ali. Parabéns cantado, bolo repartido, mais música, mais bebida, mais noite e no fim, todos se foram. Os pais desceram para o quarto de empregados, não precisava mais fingir que os amava. Eles aceitavam as condições, ensinaram aos filhos tudo o que puderam. As copeiras foram dormir, exceto a desastrada, que ficou por arrumar a casa a pedido da aniversariante. Ela, cansada de sua festa, subiu, e ele já a esperava no quarto. Abriu a porta. Em cima de uma mesa havia cerca de 40 relógios, 80 cartões de crédito, alguns anéis e colares de ouro e brilhante, inclusive o dela, falsificação feita por ele. Riram muito. Quebraram o falso que desceu ralo abaixo. Ele tirou sua fantasia de menino pobre, e tão nobre quanto ela estava irreconhecível. Ele podia sair pelos fundos e entrar pela porta da frente agora... afinal, acabara de chegar de uma longa viagem de negócios. A copeira desastrada quase não o deixa entrar, pois não o conhecia.

No dia seguinte não houveram queixas de furto ou roubos em nenhum lugar, exceto a dela, que reclamou de um anel de brilhantes. Depois dela, um ou outro foram reclamar diretamente ao banco. Suas contas já não tinha mais dinheiro. A esposa de uns ficaram receosas em denunciar o roubo do anel, era presente do amante que na festa estava.

No fim da semana, só ouviram-se boatos da boa festa que foi oferecida no Setor Bueno. "A festa do ano", como algumas colunas sociais chamaram. "Ser rico tem suas vantagens", apontara a colunista do principal jornal da cidade. Mas o mais importante de tudo foi que os irmãos Souza e Silva agora tinham mais dinheiro para se manter. Até o próximo plano de festa.

A Dor

Já que não foi embora
me deixe chorar em paz
no meu canto
no meu mundo
no meu eu

Já que não foi capaz de ir
me deixe lamentar
no meu silêncio
no meu desconforto
na minha solidão

Já que vai ficar
me deixe apenas
um minuto sozinho
eu e minhas angústias
Quem sabe elas não desaparecem com lágrimas?

Como dizer adeus

Saia de mim, fuja logo agora.
Pegue um destino qualquer, saiba,
eu não quero te ver nunca mais.
Faça suas malas, leve as lágrimas.
Delas, já não preciso.

Saia de mim, procure a morte,
é o melhor pra você nesse momento.
Eu não quero mais conviver com você.
Pegue suas trouxas, deixe minha alma.
Ninguém merece viver com a dor.

Cuidado com quem você ajuda

Estava lá, ele passando pelo parque, verde parque. A grama estava molhada, tinha chovido fazia pouco tempo, mas o sol já estourava nas cabeças das pessoas. Paupérrimo, como qualquer outra pessoa que ali freqüentava, achou um saco de pão. Metade estava com fungos, mas a outra dava para comer. Apesar da situação econômica, nunca foi desmazelado. Sempre limpo, sempre arrumado, mas pobre. Com todo cuidado, pisava na relva, para que não escorregasse e sujasse sua blusa nova, que ganhara apenas com alguns furos embaixo do braço. No andar, viu carruagens, viu cavalos, viu pessoas. Até que um momento, nada mais passava. Agora era ele que estava sendo buscado. Do longe escutava um pequeno grito fino de socorro. Um castelo avistou, uns 15 quilômetros, mas sim, ele avistava, tinha olhos bons, mas coração nem tanto. Foi ao encontro da voz e no castelo sem entradas chegou. Lá em cima uma menina gritava por ajuda.

- O que houve? Por que está presa?
- Preciso sair daqui. Urgente!
- Mas não há como salvar-te, como entrar nesse castelo?
- Eu jogo minhas tranças, e me salvando terá meu amor.

Pensou por instantes. Foi cauteloso no que iria responder.

- O que tem para me oferecer além do amor, afinal, assim como beleza não põe mesa, amor não é salvador.
- Minha família tem posses, eu sou rica.
- E acha que suas tranças conseguem me sustentar, para que suba e te salva?
- Sim, asseguro que sim.
- Jogue suas tranças! Tempo me falta, e ainda tenho que comparecer a uma entrevista de emprego.

Ela joga as madeixas, loiras, meio embaraçadas.

- O que significa isso mulher? Seu cabelo está fedido! Que horror...
- Mas meu cavalheiro, passei anos e anos nessa torre, aprisionada...
- Querida, higiene pessoal é importante! Lavar-se não é questão de costume, é obrigação.

Mesmo assim ele tentou salvá-la. Começou a subir, antes de chegar a metade do caminho o cabelo se rompe. Cabelo sujo apodrece, como pessoas. Ao cair no chão, o herói maltrapilho bate com a cabeça e morre, a menina iria esperar mais uns anos... até que o cabelo crescesse novamente e ela pudesse cuidar. Antes da morte ainda se ouviu ele dizer, com o sangue escorrendo entre seus olhos.

- De onde eram esses cabelos?

Perdido

É quando você me olha que eu fico assim
perco a cabeça, perco o juízo e o que mais tiver
é como não ter mais ninguém pra mandar
apenas teu olhar, que indica, sem impor

Suave toque de flor incomum
em pele de animal feroz
mas não passa de máscaras
usa-as com medo de se entregar

Será mesmo que é seu medo de entregar
ou minha imaginação que assim me faz crer?
É necessário sonhar pra se viver.

Perco a cabeça, o juízo e nos sonhos
um dia, quem sabe, me encontro
ou um dia, quem sabe, me encontre.

O que eu posso fazer?

O que eu posso fazer com aquele toque que nunca tive?
Se hoje penso nele, é porque em pensamento já me teve.
Em meus pensamentos já me teve.

O que posso fazer com aquela música que toca?
Toca sempre quando penso em você!
Me faz lembrar que seus braços nunca me envolveram?

O que posso fazer com o céu azul piscina?
Que reluzia meus sonhos toda noite
e nas manhãs em que queria com você?

O que posso fazer se sei que não me quer
e mesmo assim,
eu continuo apaixonado por você?

Efêmero e Verdadeiro

E quando te toco e te sinto
sinto que te quero cada dia
cada segundo que passa que não te tenho
é como se o mundo parasse e, eu,
quisesse esperar seu regresso

E quando o vento sopra voraz
sinto que não está comigo
ele me atinge mais, me leva
mas quando tenho você, tudo muda
e aquele vendaval, nada mais é
que uma simples brisa de verão

E quando meu desejo não me suporta mais
quer fugir, correr de mim
deixo essa vontade fazer ir...
pois sei que quando ela vai
busca os seus braços, seu afago...
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