Biografia de Alguém

Sempre tive medo de tomar algumas decisões
deixo a vida passando enquanto crio coragem
o problema é que a coragem nunca vem
ela não brota do nada, não mesmo

Acho que essa é uma das razões pelas quais tanto sofro
sofro por ser indigno de ter algumas atitudes
por não perceber que a vida vai passando
enquanto me isolo em um mundo imaginário inexistente

Queria ser corajoso, mas sequer sou inteligente
ridículo ao ponto de me sentir isolado
quando uma atitude mudaria muita coisa

Uma atitude de um sofredor, fraco e idiota
sim, esse sou, eu em uma totalidade
que só existe pra mim, pois ainda não nasci pro mundo
Mentiras sinceras me fazem bem
Descaso não
Isso não é um poema
Nem tem a pretensão de ser
É um desabafo, um consolo
Uma outra maneira de dizer

Almoço de Domingo

Era um domingo qualquer, como esse de hoje. Foi por volta das onze horas que eles começaram a ser feitos: arroz, carne, feijão, salada e um suco de laranja. O suco era de laranja, do pé que minha avó plantava nos fundos da casa. A carne era de galinha caipira, criação que ela tinha. A salada de tomate, alface, cebola e repolho era de sua horta. Todos comeriam, vovô, vovó e eu. Mas naquela manhã, mamãe também se sentou a mesa conosco. Dificilmente fazia isso, mas hoje ela estava lá.

Como sempre, todos sérios na mesa. Sem TV, sem rádio, sem nada. O silêncio do almoço dominical era estranho dos demais almoços de domingo. Mamãe ia pegar o arroz, vovó pegou primeiro que ela e colocou do outro lado da mesa. Logo depois vovô pegou e em seguida eu. Coloquei-o de novo perto de mamãe, que pode se servir.

O mesmo ocorreu com a carne, feijão, salada e até mesmo com o suco de laranja. Seriedade. Rostos fechados. Ninguém ali queria abrir a boca para falar. Pareciam estátuas de mármore, mas vovó, apesar de tudo, era de gelo. Logo começou a se derreter. Chorou. Soluçava e não parou mais de soluçar.

Vovô não se segurou e começou a chorar também. Eu não sabia o que fazer, mamãe olhava os dois, com piedade nos olhos. Nada podia fazer por eles. Eu fiquei observando... não sabia mais lidar com essa situação. Mamãe sai da mesa, a cadeira cai. Meus avós olham em direção a cadeira no chão. Um ano, desde então. Eu a podia ver, eles não.

Dores

Por que não consigo parar de chorar
será que são meus olhos fontes claras
ou ainda por que são sempre amargas
não sei qual o motivo do pesar

Não me encontro em cousa alguma
sei também que não sei o que quero
sou um pedaço de gente inquieto
pedaço que sempre desejo que suma

Insatisfeito comigo mesmo me desfaço
e ainda que não saiba nada do mundo
sou um ser insano e lembranças amasso

Não que queira saber tudo a fundo
mas não desejo sofrer pelo que não faço
por um sentimento em mim tão profundo

Pouco Tempo Para Nostalgia

Hoje eu parei e notei como o mundo me envelhece. Sim, eu não estou velho, o mundo sim. Ele, com sua rapidez desmedida, se tornou velho. Ontem mesmo houve seminário na escola. Preparei bem minha cartolina, mas quando me dei conta as pessoas já usavam o retroprojetor. Quando realmente me dei conta, as pessoas já achavam o datashow ultrapassado.

Momentos antes, minha mãe preparava meu café da manhã, leite com achocolatado, enquanto isso eu passava a margarina no pão. Nessa hora vi que as pessoas já não tomavam mais café juntas e faziam suas comidas em latas, cafeteiras e microondas. Minha mãe coava o café e o pão era buscado sempre no horário em que saiam as primeiras fornadas, depois ele demoraria. Eram dez pão por um real, hoje nem a nota de um real existe mais.

Quando acordei nesse mesmo dia, minha mãe me deu um beijo de bom dia. De cara amassada levantei, e apesar da carrancuda cara, por dentro estava feliz. Banhei, escovei meus dentes com meu Tanddy Morango. Vesti minha camisa do Capitão Planeta por debaixo do uniforme escolar. Calcei meu all star preto e branco e dando um charme que só essa época teve, meias até a canela. Em que mundo estou hoje? Acordar com despertador já é algo raro, um beijo de bom dia da mãe então... o celular adquiriu essas funções. Ao menos banhar e escovar os dentes ainda se mantém, afinal tirar o bafo de cerveja e o cheiro de cigarro são essenciais. Sai o Tanddy, entra o Hall extra forte.

Uniforme é propaganda e não símbolo. Nosso herói se bandeou e assumiu marcas. Nike e Puma são alguns dos nomes assumidos por eles e por algumas nações. All star ganhou cores e impõe um certo tipo de tribo. Antes a tribo me aceitava, hoje as pessoas devem ser aceitas por tribos, ainda que não se enquadrem nelas. Cor era luz, hoje define.

Amigos são aqueles que conversamos pelo msn, enquanto faço uma cópia do Wikipedia para meu trabalho de história. Amigos são aqueles que seguimos no twitter, pois quem eu não seguimos, sinceramente já não nos interessa nem um pouco. Voltou a onde de querer um milhão de amigos, sem bem mais forte querer cantar, óbvio. Se esses quiserem cantar que façam download dos meus demos no MySpace e coloquem em seus Ipods e "emes" "pês" números infinitos.

Minhas férias eram contadas em fatos que minha mãe guarda bem lá no fundo da cômoda do quarto dela. Algumas de minhas férias, confesso, cheguei a contar no Hyperfotos... que já caiu em desuso meses depois das férias terem acabado. Foi substituído por redes sociais mais completas, Orkut,Facebook, Sonico, Badoo, Hi5 e tantos outros que recebo em meu email todos os dias. Apesar do email, ainda recebia cartas, manuscritos de amigos e demais coisas que colocavam dentro das cartas.

Chega de lastimar o tempo. Realmente o mundo se mantém novo e eu que fiquei velho. Afinal, o que é mais velho que ser feliz?

Assassino de mim

Eu sou um assassino
me mato a cada dia
desde que amanheço
até quando finjo acordar

Assassino sonhos e desejos
Vontades e sentimentos que,
jamais, jamais, deixei de matar
Sou um insano, algo peculiar

Tropeço em minhas lágrimas
ao mesmo tempo em que me afogo.
Sou fogo, sou fraco, sou água, volátil

Perdido na matança que me propus
Sou carne, sou ossos, sou mortal
Um ser humano, um irracional
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