Já se ouvia aquela música estrondosa de longe. Sábado. Noite de sábado. Ele, em seu carro passado de dez anos de uso, para não pagar imposto, contudo era conservado. O carro e ele. Meia idade, mas aparentava seus 30, no máximo. Estilo garotão ainda, vivia sozinho desde que sua mãe faleceu, deixando uma boa fortuna a ele. Logo, ao receber, resolveu se mudar para região metropolitana de Goiânia. Seu dinheiro daria pra viver até morrer, caso ficasse solteiro para o resto da vida. E, assim decidiu fazer. Não deu muito certo por obra do destino uma coisa, um filho ao acaso. Ele aparentando seus 30, nem se podia dizer que aquele menino de 20, com cara de adolescente era seu filho. Nem ele podia dizer, afinal, do menino só conhecia o número da conta bancária qual depositava todo mês a pensão, obrigado pela justiça. E só a conta do menino, pois ele mesmo não tinha, coisas de pessoas do interior.
A noite estava tranquila, com poucos carros na rua, uma lua que brilhou no céu apenas há 20 anos atrás, quando se deitou com aquela mulher, a mãe do menino, menino que ele sustenta. Mas isso já não mais importa. No decorrer dos anos que foram passando apenas para os outros, ele foi para cama com outras mulheres - loiras, morenas, ruivas - foi pra cama com outros homens - loiros, morenos, ruivos - e para sair da rotina frequentava algumas casas de massagens onde podia ir pra cama com homens e mulheres - loiros e loiras, morenos e morenas, ruivos e ruivas...
Ele não tinha mais pudor depois que sua mãe falecera. Era um homem de todos. Gastou muito com programas de televisão de canal fechado, gastou muito com programas realizados por profissionais do sexo. Eram muitos seus ideiais... era pouca sua inteligência.
A porta da boate estava cheia. Mas como em qualquer lugar do mundo esnobe dessa sociedade, o dinheiro abre portas. Na capital do centro do país isso não muda. Era o que chama hoje de VIP, quase que alguém importante nos olhos dos invejosos que o viram furar fila. Passou, entrou direto ao camarote e já pediu um energético. Precisava estar animado. Em dois dias iria conhecer a cidade maravilhosa. Sim, com tanto dinheiro ainda não havia pensado em viajar, exceto para as fazendas no interior do estado que comprou.
Um energético foi o suficiente para animar. Tocava uma modinha qualquer, dessas músicas barulhentas que toca em qualquer boate que atraia os jovens, e também os senhores de meia idade que se acham jovens. Uma menininha, vestidinho colado, pele clara e nada delicada se insinuava para ele, a medida em que fingia dançar. Dançavam colados, rosto a rosto, pele a pele, mãos nas bundas. De provocante a cena ficou constrangedora. Ele mesmo deu um perdido na menina, melhor dizendo, dispensou-a. Um garoto no canto sentado sozinho e bebendo um Ice chamou sua atenção. Ia aproximar quando a menina que antes o provocava sentou com o rapaz do Ice.
Pensou, sabia que podia ser uma chance de puxar papo com ele, já que ela ali estava. Nem precisou, a menina foi até ele e o arrastou até a mesa.
- Meu amigo gostou de você... - antes que ele pudesse responder ela já completava - e eu também gostei. Gostamos de homens maduros.
Ele não gostou de ser identificado como homem mais velho, ainda era garotão. Mas os dois olhavam de um jeito que prendia seu comportamento de negação, ainda que houvesse. O rapaz continuava a beber seu Ice, tímido, parecia um adolescente, talvez um adolescente playboy, percebia pela blusa Nike que vestia.
- Quer mais um Ice? - o garotão ofereceu para socializar mais rápido.
- Podemos tomar em outro lugar, mais calmo...
O recado estava dado. Meia hora de festa e ele já laçava sua vítima da noite. Ou suas vítimas. O rapaz do Ice e a moça provocante. Saíram os três. Ele, todo pomposo, os chamou pra sua casa, em seu Vectra GT. - É o mais simples - gabava-se ele. No carro ele dirigia e via os dois se beijando atrás. - Eu também quero participar da brincadeira - sorria com canto de boa.
Pararam na primeira loja de conveniência que estava aberta, desceram os homens para comprar a bebida. 20 garrafas, decidiram por levar uma vodka e um refrigerante de limão também. O balconista pode ver quando o garotão, no caminho, passou a mão na bunda do rapaz, que levava a bebida. No banco de trás, a provocadora retocava a maquilagem. Queria ser ainda mais provocante. Algumas voltas na cidade e chegaram a casa do homem. Carro na garagem. Desceu os três. Ela encosta o garotão na parede, o rapaz faz com a moça um sanduíche. Mãos desconhecidas passam pelos três corpos. O rapaz pega a bebida e a chave da casa. Entra e vai a cozinha preparar os drinks. A moça fica no sofá com o garoto mais velho.
- Três copos de vodka com limão e gelo.
O rapaz serve a moça e ao homem da casa. Brindam. O homem tenta beijar o rapaz, que se esquiva. Ainda consegue passar a mão no corpo do rapaz. Bebem mais. Ele tenta novamente. Mas dessa vez cai tonto. Vodka é muito forte para pessoas fracas, ignorantes, de pouca inteligência.
Quando acordou, no dia seguinte, não sabia onde estava. Sua cama era o chão da sala, que vazia estava. Os quartos era cômodos de fantasmas. Exceto o quarto de hóspedes, que havia panos rasgados. Guardar dinheiro em colchão nunca foi uma boa ideia. Pensou em chamar a polícia, mas o que dizer? Havia sido roubado por uma garota e um menino que não conhecia e levou para sua casa?
Nu, como os jovens o deixaram, foi ao jardim verificar se ao menos as roupas sujas estavam ainda na máquina. Porém não havia mais máquina. Sem lenço e sem documento. sem roupa, sem dinheiro. Voltava a ser quem nunca deixou de ser, um pouco pior agora. No espelho que ficou na sala ele começava a perceber que a velhice começou a chegar. 30 anos passou em questão de segundos. Antes um garotão, agora um homem de meia idade, tapeado por uma garota e um rapaz que tinha idade para ser o seu filho.