Dosagem

Olha a bagunça dessa sala, meu amor
peço que arrume isso logo
as folhas estão por toda parte
canetas borrando o piso claro

A janela aberta espalha tudo
levando pelo corredor até os quartos
uns ficam nos quadros da parede
outros nos quadros que nem postos estão

Organize-se um pouco mais
deixe as coisas em seu escritório
Quando tivermos nossos filhos, como será?

Parece que você faz tudo por querer
Precisa ser mais cuidadoso...
- Ainda assim eu sinto falta de você!

Uma dose

Me traz uma dose...
qualquer uma, apenas me traga
Já disse que pouco importa, eu a quero
A quero como nunca quis ninguém em minha vida

Mas por favor, me traga uma dose
É difícil de engolir, eu sei,
mas ainda assim eu a quero, bela,
lindamente bela, e dispersa

A dose dispersa meus sentidos
eu fico tonto, ficou louco
eu sou louco por ela, é ela que quero

Quero beber até a última gota
quero ficar de porre, traz uma dose
me traz uma dose dela, por favor.

Coisas e Objetos

Somos um objeto no mundo, mais um objeto qualquer. Uma coisa jogada nessa imensidão buscando uma razão para continuar. Ao certo não sabemos aonde chegar, mas andamos com certeza que o caminho existe. E nesse caminho, encontramos outras coisas e objetos que nos fazem criar algo que inutilmente, ou não, chamamos de sentimentos. São esses que dizem e desdizem, fazem e acontecem com a gente. Começamos a dar nome às coisas. De um simples objeto jogado nesse habitat para vegetar, mudamos o timbre das coisas para humanos que vivem na terra. Mudamos depois para família, amigos, conhecidos, estranhos, inimigos, assassinos, vilões, heróis, mocinhas, mulheres, homens, adolescentes, jovens... são inúmeros nomes que no fim são humanos, que no fim são aqueles objetos.

O caminho nos traz desejos, algo que não tínhamos. Nos faz adjetivos, nos faz sonhos, nos faz o que queremos, pois agora pensamos. Se pensamos, existimos, já disse um grande objeto anos antes. Passo a passo, podemos agora trilhar outros caminhos, pois estamos certos que eles existirão. E a cada caminho, novos humanos, novos substantivos, novas coisas.

Contudo, não sabemos o que é ou o que nos espera no final dessa viagem. Não sabemos sequer onde é o final desse caminho. Nós o estipulamos, e desse modo, criamos a tal da felicidade. Felicidade que hoje se apresenta de diversas formas. Cada caminho é um ciclo, sem dúvidas, e em cada ciclo criamos nossos nossos humanos e nós que daremos a eles nomes. Se serão coisas e objetos, vilões ou heróis quem nos dirá é a nossa consciência em tornar o nosso caminho passível para todos caminharem.

Desalento

A sua cabeça balança com o sopro de sangue?
Sua mente se envenena com as palavras malditas?
Seu corpo cede aos sussurros da tristeza?
E seus olhos, choram calados a dor que não pode expressar?

Então se cale, e não me dê lições de moral
se entendesse me abraçaria, sem pudor
Cale-se, pois minha alma foi roubada
meu coração apedrejado e sozinho estou

Não me venha falar como é a vida
Não me venha dizer como seguir em frente
Por que apenas não toca meu rosto acarinhando-me?

Eu não preciso de moribundos, não mesmo.
Não quero moscas ao meu redor.
Preciso de plenitude, ao menos a esperança da existência.
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