Ele está sozinho
Ela era prima daquela. Era tia daquele. Sobrinha deles ali. Pertencia àquela igreja. Ex-esposa do que não veio. Ele é o filho dela. Ela era a irmã das duas no canto, filha da que chora. Ela é a falecida.
Ela foi muitas, mas agora é apenas uma, a falecida. Os choros são contidos por uns, mas incontroláveis para outros. Ele, o filho, está estático. Olhar paralisado. Será que ele sabe o que houve? Digo, será que ao dormir hoje ele não ficará estranho, sem chão, sem forças...
Ele não chorava, outros se debulhavam. Lá fora, alguns riam e conversavam alto, será que não percebiam a gravidade da situação para ele? Inocentes, as crianças corriam para todos os lados, suadas, mas não demonstravam sinal de cansaço. O tempo quente da noite colaborava para que todos estivessem exaltados, sejam sorrindo com outras conversas, ou chorando pela falecida. Exceto ele.
Passava da meia noite quando ele saiu e foi descansar um pouco. E pouco demorou para voltar. Debruçou sobre o caixão. Sem uma lágrima, sem um ruído. E estático, mais uma vez permaneceu. A noite se prolongava. As horas até o enterro pareciam demorar durar mais que o normal. A lua minguante, reduzia a cada minuto, e a cada segundo as pessoas se dispersavam.
Pouco passaram a madrugada ali. Mas mal chegou as sete da manhã e já apareciam todos da noite. Rezas, orações, unções, bençãos... O choro tomou conta da sala. As pessoas seguiam rumo aos carros. Iriam fechar o caixão. A tampa já sobre ela, o garoto quebra o silêncio com um sinal para abri-lo novamente. Beija a testa da mãe e parece sussurrar algo. As lágrimas escorrem. Olhos vermelhos, ainda contidos. O cortejo segue até o sepultamento. Rezas, orações, unções, bençãos... Cânticos. Ela é enterrada. Se levou sonhos, não sei, não posso afirmar nada de seu otimismo para lutar contra o câncer. Deixou seu filho, único. Ao acordar desse pesadelo, infelizmente, ele perceberá que ele se fará presente todos os dias. Nem sempre a vida é justa, até porque não temos a noção de justiça.
Quando fui embora, ele estava pensativo. Ao dormir ou acordar verá sempre a mesma cena, a vida com o mesmo compasso. Passo após passo, sozinho, deverá seguir. Nem sempre a vida justa, pois justiça mesmo, ninguém sabe o que é.
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Peço perdão por devaneios da vida real. Peço perdão por transformar a vida em literatura. A vida imita a arte e a arte imita a vida. Mas nesse caso, transcrevo a vida na arte, para amenizar a dor de sentir o que não se pode rancar do coração.
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Ela foi muitas, mas agora é apenas uma, a falecida. Os choros são contidos por uns, mas incontroláveis para outros. Ele, o filho, está estático. Olhar paralisado. Será que ele sabe o que houve? Digo, será que ao dormir hoje ele não ficará estranho, sem chão, sem forças...
Ele não chorava, outros se debulhavam. Lá fora, alguns riam e conversavam alto, será que não percebiam a gravidade da situação para ele? Inocentes, as crianças corriam para todos os lados, suadas, mas não demonstravam sinal de cansaço. O tempo quente da noite colaborava para que todos estivessem exaltados, sejam sorrindo com outras conversas, ou chorando pela falecida. Exceto ele.
Passava da meia noite quando ele saiu e foi descansar um pouco. E pouco demorou para voltar. Debruçou sobre o caixão. Sem uma lágrima, sem um ruído. E estático, mais uma vez permaneceu. A noite se prolongava. As horas até o enterro pareciam demorar durar mais que o normal. A lua minguante, reduzia a cada minuto, e a cada segundo as pessoas se dispersavam.
Pouco passaram a madrugada ali. Mas mal chegou as sete da manhã e já apareciam todos da noite. Rezas, orações, unções, bençãos... O choro tomou conta da sala. As pessoas seguiam rumo aos carros. Iriam fechar o caixão. A tampa já sobre ela, o garoto quebra o silêncio com um sinal para abri-lo novamente. Beija a testa da mãe e parece sussurrar algo. As lágrimas escorrem. Olhos vermelhos, ainda contidos. O cortejo segue até o sepultamento. Rezas, orações, unções, bençãos... Cânticos. Ela é enterrada. Se levou sonhos, não sei, não posso afirmar nada de seu otimismo para lutar contra o câncer. Deixou seu filho, único. Ao acordar desse pesadelo, infelizmente, ele perceberá que ele se fará presente todos os dias. Nem sempre a vida é justa, até porque não temos a noção de justiça.
Quando fui embora, ele estava pensativo. Ao dormir ou acordar verá sempre a mesma cena, a vida com o mesmo compasso. Passo após passo, sozinho, deverá seguir. Nem sempre a vida justa, pois justiça mesmo, ninguém sabe o que é.
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Peço perdão por devaneios da vida real. Peço perdão por transformar a vida em literatura. A vida imita a arte e a arte imita a vida. Mas nesse caso, transcrevo a vida na arte, para amenizar a dor de sentir o que não se pode rancar do coração.
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