A chuva de ontem

A chuva que ontem era canção
hoje é trovão, machuca
desperta a dor que não devera sentir
meu peito lateja, pede clemência

Sou barco naufragado, dor latente
sou fraco, sou criança, sou ninguém
sou um reflexo qualquer de um dia comum
que me fizeram parecer ser

A chuva que ontem luz
hoje é treva, enterra meu corpo
pouco a pouco, na solidão que me pertence

Sou âncora, no fundo do mar
perdida, sem ninguém a salvar
preso nos desejos mais intensos: sofrer.

Pedra de Gelo

Confesso que se um dia eu me tornar frio
será reflexo do que vocês me fazem
cada toque, cada olhar, seus atos
suas atitudes... todo o conjunto

Confesso que se um dia me tornar frio
será reflexo do que vocês me proporcionam
o toque, os olhos, o modo com que realizam as coisas
isso é deprimente, isso machuca

Um dia, como esse, e daqui pra frente
serei frio, como uma pedra de gelo
que não se derreterá nunca mais

Um pedra gigantesca de gelo
pronta para boiar no meio do oceano frio
que vocês me colocaram para viver.

Dias

Era 26, ou 23? Sabe que não lembro ao certo. Era um dia comum, de fato. Pensava ser um dia comum, mas pelo contrário, foi um dia que não existiu... É estranho pensar assim, mas foi o que ocorreu. Não importa se foi 26, se foi 23, por que na verdade, não foi.

Pode aparentar certa angustia, certo desejo de solidão, mas não se aparenta algo que acontece. Não quero subjetivar algo tão íntimo, mas quero objetivar algo muito claro. Os dias passam na tentativa de não existirem... E esse foi um.

Desilusão

Como sempre, tudo passa, as coisas passam, você passa
passa e ninguém percebe
seja lá, ali, acolá, em qualquer lugar
é mais um em meio a tantas coisas,
você se mistura
se condena
é condenado

Solidão não é estar sozinho
talvez não seja se sentir só
mas estar vazio, e não haver ninguém
que queira suprir esse oco, essa opacidade
solidão é sentir só, mas de verdade.

Feliz Aniversário

Sinto as flores da primavera desabrocharem
as pétalas insistem em cair, já não tão suaves
são marcas que ficam, são anos que passam
são, enfim, o raso vazio que hoje já não sinto

O vento que leva cada pétala, hoje apenas uma
sem sangue, sem dor, com cor, com vida, leve
leve o vento que hoje sopra, mas rasga com intensidade
forte o vento que hoje corta, mas sopra com serenidade

Como viver pode ser tão paradoxo?
Como morrer pode ser tão prolixo?
Como sentir dor pode ser tão agonizante?

Significa, talvez, que a vida segue, como o vento
e o vento sopre como o destino
que me dá um ano, na fragmentação das noites

Repúdio Intelectual

Queimem as velas hoje
pois hoje morre mais um ser
ao certo não sei sua cor, sua identidade
apenas que falece, e falece lentamente

Queimem as velas hoje
pois amanhã será muito tarde pra chorar
se esse amanhã tão esperado existir
caso chegue, se ele vingar

Pensando bem, não façam nada
e deixem tudo acontecer desse modo
mudem o rumo das coisas estando mudos

Melhor mais um indigente intelectual
que uma massa intelectual
que se diz inteligente

Dias tais como esse

São dias comuns que me fazem pensar na vida. Como o dia de hoje. Um sábado qualquer, quente, como só aqui pode ser. Pessoas que se vestem como para ir a festas, simplesmente para caminhar nas proximidades. Mas são atitudes comuns, de carinhos simples, como um dedo alisando o queixo, uma criança que não pode correr sorrindo ao tirar foto com um monstro de animação.

São dias comuns que me fazem pensar na vida. Como o momento de agora. Um domingo qualquer, leve chuva, como só aqui pode ter. Ruas calmas, luzes da cidade, luzes na cidade picando e indo embora. É esse clima que me faz bem. Pessoas voltando para casa, outros ainda em se divertindo por ai, trabalhadores querendo descansar.

São dias comuns como esse que me fazem pensar que a vida requer um pouco mais de percepção e um pouco menos de colírio. Um pouco mais de sensibilidade, um pouco menos de arrogância. Uma dose de respeito, amor e verdade. Meia dose de solidão, pois nem tudo é tão assim.

Desabafo

Não sabe o quanto fere
o quanto machuca
seu olhar
seu silêncio
suas palavras fúnebres

Não sabe o quanto fere
saber que quem você ama não o quer bem
não faz nada para te ver bem

Isso é um desabafo
entenda quem quiser
como quiser
do modo que quiser

Um dia tudo acaba
seja longe
seja eternamente longe
Entenda como quiser.

Renato Dering

Dói

Dói
saber que minha existência é banal
que a vida é instrumento de dor
e os dias são lâminas afiadas

Dói
ouvir que nada é como deveria
que não há pessoas amigas
e as palavras são armas nucleares

Dói, acima de tudo
sentir medo de viver
e ver que os caminhos são abismos

Dói, acima de tudo
ler nas linhas tudo aquilo
que se quer deveria estar escrito

Me irrita

Me irrita o jeito que ela se acomoda
esquece o mundo no seu mundinho
esquece as coisas nas suas coisinhas
deixa de lado a vida com sua vidinha

Me irrita o jeito que ela me olha e acomoda
parece que nada importa
mas tem uma vida inteira pela frente
esquece os sonhos na sua realidadezinha

Mas o que me irrita mesmo
é como ela me faz ser
agudo, insolúvel, impertinente

Fácil é ver
Difícil é sentir
Entender, é obrigação, ao que parece.

Desvio

Desvio meu olhar para ver o que não há.
Sem desejos, sem ternuras, cem corpos
vago nos olhos fracos meus, hoje do mundo
lágrima já não cai, não há como nascer

Desvio meu olhar para ver o que há em outro lugar
há lugares demais para ver, há muitas pessoas
me vago na solidão que hoje não me consola mais
me calo diante a amargura que me atinge mais

Desvio meus olhos, mais fortes, viro a cabeça
não quero olhar nada, nada me faz bem
ânsia, dores, repugno tudo, tudo pra fora

Desvio minha mente, pois nisso já não quero pensar
como parar de pensar em algo que,
todo momento presente em mim está?

Deixo o vento levar

Preciso deixar o vento levar as coisas
a poeira, essa poeira que fere nossos olhos
deixar que ele sopre cada momento
e em cada pensamento, sentir o frio da vida

Preciso deixar o vento me levar
voar pra longe, para qualquer lugar
parar no meu lugar e perceber que,
nada é como deveria ser

Deixo essa ventania em mim despedaçar
caco a caco, me vejo em pedaços pequenos
pequenos pedaços de mim espalhados

A morte é tão próxima e distante
em instante nos toma, não sabemos mais
o que somos, e por que assim somos.
Powered by Blogger