Tem café na minha gramática

Tem café na minha gramática
Sempre fui meio desastrado
Sem querer os fonemas se queimaram
e a sintaxe está amarga

Tem café em minha gramática
Coitado dos advérbios e verbos
a morfologia já não é a mesma
Isso prejudicaria minha semântica?

Tem café na minha gramática
ora leio substantivo, ora leio adjuntos
onde estão os complementos nominais?

Tem café em minha gramática e não é bobagem
Pulo às últimas páginas
E vou me perder nas figuras de linguagem.

Insolúvel

Queria muito dizer que te amo
mas tenho medo do que possa me falar
medo de sua reação, de ferir
ainda mais meu coração

Queria muito dizer: Eu te amo
mas prefiro seguir caminhando
calado no meu canto
pensando alto e te chamando...

Meus olhos já não escondem
o que eu sinto toda vez que te vejo
não escondem a vontade que eu tenho

Meus olhos já choram sabendo que é impossível
sentir-te um minuto que seja, te tocar
talvez eu não tenha nascido pra amar.

Prisão

Minha cabeça está doendo
Minha alma está doendo
Meus pensamentos doem
O choro escorre queimando minha face

Só, sem percepção, eu choro calado
to preso em mim
na agua que deveria me purificar.

Cuidado com quem você ajuda

Estava lá, ele passando pelo parque, verde parque. A grama estava molhada, tinha chovido fazia pouco tempo, mas o sol já estourava nas cabeças das pessoas. Paupérrimo, como qualquer outra pessoa que ali freqüentava, achou um saco de pão. Metade estava com fungos, mas a outra dava para comer. Apesar da situação econômica, nunca foi desmazelado. Sempre limpo, sempre arrumado, mas pobre. Com todo cuidado, pisava na relva, para que não escorregasse e sujasse sua blusa nova, que ganhara apenas com alguns furos embaixo do braço. No andar, viu carruagens, viu cavalos, viu pessoas. Até que um momento, nada mais passava. Agora era ele que estava sendo buscado. Do longe escutava um pequeno grito fino de socorro. Um castelo avistou, uns 15 quilômetros, mas sim, ele avistava, tinha olhos bons, mas coração nem tanto. Foi ao encontro da voz e no castelo sem entradas chegou. Lá em cima uma menina gritava por ajuda.

- O que houve? Por que está presa?
- Preciso sair daqui. Urgente!
- Mas não há como salvar-te, como entrar nesse castelo?
- Eu jogo minhas tranças, e me salvando terá meu amor.

Pensou por instantes. Foi cauteloso no que iria responder.

- O que tem para me oferecer além do amor, afinal, assim como beleza não põe mesa, amor não é salvador.
- Minha família tem posses, eu sou rica.
- E acha que suas tranças conseguem me sustentar, para que suba e te salva?
- Sim, asseguro que sim.
- Jogue suas tranças! Tempo me falta, e ainda tenho que comparecer a uma entrevista de emprego.

Ela joga as madeixas, loiras, meio embaraçadas.

- O que significa isso mulher? Seu cabelo está fedido! Que horror...
- Mas meu cavalheiro, passei anos e anos nessa torre, aprisionada...
- Querida, higiene pessoal é importante! Lavar-se não é questão de costume, é obrigação.

Mesmo assim ele tentou salvá-la. Começou a subir, antes de chegar a metade do caminho o cabelo se rompe. Cabelo sujo apodrece, como pessoas. Ao cair no chão, o herói maltrapilho bate com a cabeça e morre, a menina iria esperar mais uns anos... até que o cabelo crescesse novamente e ela pudesse cuidar. Antes da morte ainda se ouviu ele dizer, com o sangue escorrendo entre seus olhos.

- De onde eram esses cabelos?

Lamentar

A chuva caindo me lembra o cheiro do mar
aquele mar que vi noutro canto do mundo
que, por brincadeira, tentava avistar aqui
mas na verdade não queria mesmo encontrar

Saudades tenho daquilo que um dia vivi
que um dia podia viver e,
por uma razão só minha, não pude
mas sei que agora me toma conta a vontade

É quando chega a noite que posso sentir
a presença da saudade daquilo que nunca tive
Mas que um dia terei.

É quando a noite cai, que vejo no lamentar da lua
a decepção de uma pessoa que um dia
esteve exatamente onde queria estar.

É o vento

São seus olhos
sem dúvida são eles
verdes, azuis, castanhos...
brilhantes!

É seu olhar
sem dúvida é ele
meigo, leve, suave
penetrante!

É o toque de suas mãos
deslizando em minha pele
me fazendo sonhar!

É o vento...
é ele levando tudo embora
sonhos, desejos, você!

Queria que soubesse

Eu queria hoje poder dizer o que sinto
cada minuto que te vejo coração palpita forte
foi sorte te encontrar nessa vida
foi sorte saber que está perto de mim

Queria poder dizer que adoro seu cabelo ao vento
eu paro, admiro, invento qualquer coisa pra falar
mas choro e sei que em você não vou estar
será que pensa como eu? será que me vê além do que sou?

Queria poder dizer que seu sorriso é lindo
sua pele, tão doce, dá vontade de morder sua bochecha
e bem devagar, descer em seus lábios, me perder, me encontrar

Queria, enfim, poder dizer que sou seu anjo
aquele que te protege, que vai te guiar
independente de tudo, queria que soubesse quem sempre vai te amar.

Pensamentos livres

Na caravana da solidão, me desespero em meu sofrimento. Sou vento, alento, perdido num invento qualquer que dizem ser o amor. Mas me diz porque ele se parece tanto com a dor, essa que sinto sempre que te vejo, percebo e sinto. Assim me descontrolo, queria tocar você levemente, estar presente em sua mente, conquistar seu coração... Sou louco por amar você, insano por te querer e triste por saber que não passa de ilusão.
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