Estava lá, ele passando pelo parque, verde parque. A grama estava molhada, tinha chovido fazia pouco tempo, mas o sol já estourava nas cabeças das pessoas. Paupérrimo, como qualquer outra pessoa que ali freqüentava, achou um saco de pão. Metade estava com fungos, mas a outra dava para comer. Apesar da situação econômica, nunca foi desmazelado. Sempre limpo, sempre arrumado, mas pobre. Com todo cuidado, pisava na relva, para que não escorregasse e sujasse sua blusa nova, que ganhara apenas com alguns furos embaixo do braço. No andar, viu carruagens, viu cavalos, viu pessoas. Até que um momento, nada mais passava. Agora era ele que estava sendo buscado. Do longe escutava um pequeno grito fino de socorro. Um castelo avistou, uns 15 quilômetros, mas sim, ele avistava, tinha olhos bons, mas coração nem tanto. Foi ao encontro da voz e no castelo sem entradas chegou. Lá em cima uma menina gritava por ajuda.
- O que houve? Por que está presa?
- Preciso sair daqui. Urgente!
- Mas não há como salvar-te, como entrar nesse castelo?
- Eu jogo minhas tranças, e me salvando terá meu amor.
Pensou por instantes. Foi cauteloso no que iria responder.
- O que tem para me oferecer além do amor, afinal, assim como beleza não põe mesa, amor não é salvador.
- Minha família tem posses, eu sou rica.
- E acha que suas tranças conseguem me sustentar, para que suba e te salva?
- Sim, asseguro que sim.
- Jogue suas tranças! Tempo me falta, e ainda tenho que comparecer a uma entrevista de emprego.
Ela joga as madeixas, loiras, meio embaraçadas.
- O que significa isso mulher? Seu cabelo está fedido! Que horror...
- Mas meu cavalheiro, passei anos e anos nessa torre, aprisionada...
- Querida, higiene pessoal é importante! Lavar-se não é questão de costume, é obrigação.
Mesmo assim ele tentou salvá-la. Começou a subir, antes de chegar a metade do caminho o cabelo se rompe. Cabelo sujo apodrece, como pessoas. Ao cair no chão, o herói maltrapilho bate com a cabeça e morre, a menina iria esperar mais uns anos... até que o cabelo crescesse novamente e ela pudesse cuidar. Antes da morte ainda se ouviu ele dizer, com o sangue escorrendo entre seus olhos.
- De onde eram esses cabelos?